Quando meus passos sobre esta terra
Estendo, penso sobre o compassado
Passo de alguém qualquer, de algum passado
Qualquer, que a um e todos tempos erra.
Por sobre a relva de uma verde serra
Ou por atalho mal iluminado,
Todas as vias de um jovem viajado
Em cada um destes passos meus se encerra.
Quando caminho sinto que me envolve
Um espírito raro que dissolve
A humanidade toda em um só par:
Uma vontade de em todo lugar
Estar e cada vida se viver;
E ao ser tudo, ser um nunca ser.
sábado, 3 de novembro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
XII
Teria sido um agradável trato
Se alento algum aquele rio trouxesse
À alma, ou alma alguma ali houvesse,
Salvo aquela a mirar o quadro ingrato.
Rasteja morrediço o grís regato;
E a relva ao seu redor, quando anoitece
Torce-se triste como se antevesse
À minguante um nefasto correlato.
Entre fluídas formas hirtas leio
A verdade de augúrios já sabidos
E o ímpeto de renegar o anseio...
Quão é me amargo maldizer a Lua!
E ver entre semblantes retorcidos
O tempo escoar inerte pela rua.
Se alento algum aquele rio trouxesse
À alma, ou alma alguma ali houvesse,
Salvo aquela a mirar o quadro ingrato.
Rasteja morrediço o grís regato;
E a relva ao seu redor, quando anoitece
Torce-se triste como se antevesse
À minguante um nefasto correlato.
Entre fluídas formas hirtas leio
A verdade de augúrios já sabidos
E o ímpeto de renegar o anseio...
Quão é me amargo maldizer a Lua!
E ver entre semblantes retorcidos
O tempo escoar inerte pela rua.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
O Poço
Venha salvar-me, voraz tempestade!
Que a brisa suave envenena meu ser!
Veja este rosto que aqui neste poço
Assoma-se às sombras de seu frio fenecer!
Inerte escárnio lhe cobre o semblante,
Escárnio inerte de seu próprio viver.
Assombram-me os olhos aqui refletidos,
Os olhos (meus olhos!) para sempre perdidos
Em sua angústia de infindo rever.
Revolva à vida este lago gelado!
Venha afogar esta imagem irreal!
Outra vez vejo ver-me a mim
Nos destroços deste poço ancestral,
Refletindo o cair das estrelas
Que se apagam nestas vagas sombrias,
Frias ondas de ilusão celestial.
Que se encontram no sangue e na noite:
Nívea flor de torpor infernal!
Que a brisa suave envenena meu ser!
Veja este rosto que aqui neste poço
Assoma-se às sombras de seu frio fenecer!
Inerte escárnio lhe cobre o semblante,
Escárnio inerte de seu próprio viver.
Assombram-me os olhos aqui refletidos,
Os olhos (meus olhos!) para sempre perdidos
Em sua angústia de infindo rever.
Revolva à vida este lago gelado!
Venha afogar esta imagem irreal!
Outra vez vejo ver-me a mim
Nos destroços deste poço ancestral,
Refletindo o cair das estrelas
Que se apagam nestas vagas sombrias,
Frias ondas de ilusão celestial.
Que se encontram no sangue e na noite:
Nívea flor de torpor infernal!
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
A John Keats
Por longo tempo vaguei neste leito
E deslumbrei-me em sua iridescente
Veste de calmas águas, onde o silente
Tempo perdeu-se; e meu sereno peito,
Ainda que ao celeste enlevo afeito,
De suas cores ébrio em seu fulgente
Ventre imergiu. Ali, leve e indolente,
Meu espírito ao tudo foi desfeito.
Que mão a me guiar, então, absorto
Em vida e inconscientemente morto?
Eras tu, imortal, transfigurado
Em poesia. Teu nome escrito fora
Nestas águas: mas tu, à terna aurora
Para sempre alçará teu verso alado.
E deslumbrei-me em sua iridescente
Veste de calmas águas, onde o silente
Tempo perdeu-se; e meu sereno peito,
Ainda que ao celeste enlevo afeito,
De suas cores ébrio em seu fulgente
Ventre imergiu. Ali, leve e indolente,
Meu espírito ao tudo foi desfeito.
Que mão a me guiar, então, absorto
Em vida e inconscientemente morto?
Eras tu, imortal, transfigurado
Em poesia. Teu nome escrito fora
Nestas águas: mas tu, à terna aurora
Para sempre alçará teu verso alado.
Soneto De Mudança
Tudo que muda
Ou passa a ser
Que transmuta
É belo ao riso do ser
Um sorriso macio
Um berço dengoso
Um ato gentil
Abraço saboroso
E lá fora neva, tostando
Os olhos do pensador
O calor, o frio, branco
Faz-se figura do sonhador
Quem outro fez chorar
Hoje é riso posto a bailar
O Tempo É
O tempo é
Ao mesmo tempo
E todo o tempo
Horrível e delicioso
O mais cruel
E mais sábio mestre
Do homem mal
E do bondoso
Enigma tal
Tão vasto tal rosto
Quem vive por ti
Canta com a alma
E quem morre, de desgosto
domingo, 7 de outubro de 2012
A um Poeta Esquecido
Ao teu corpo enterrarem, em teu peito
Tua alma esqueceram: o perverso
Que rói teus ossos rói também teus versos;
O Tempo é o verme que perturba o leito.
Ainda que às estrelas não eleito,
Alegra-te, que à terra, ao ritmo inverso
Da vida, tua alma será berço
De outra alma, e teu verso, em novo feito.
Tal qual os frutos de ramos perdidos
Voltando à terra brotam ramos belos,
O poeta, voltando assim aos velhos
Em seu campo terá versos floridos:
Pois, se com sua pena um livro lavra,
Há de colher, também, novas palavras.
Tua alma esqueceram: o perverso
Que rói teus ossos rói também teus versos;
O Tempo é o verme que perturba o leito.
Ainda que às estrelas não eleito,
Alegra-te, que à terra, ao ritmo inverso
Da vida, tua alma será berço
De outra alma, e teu verso, em novo feito.
Tal qual os frutos de ramos perdidos
Voltando à terra brotam ramos belos,
O poeta, voltando assim aos velhos
Em seu campo terá versos floridos:
Pois, se com sua pena um livro lavra,
Há de colher, também, novas palavras.
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