Acima há uma pérgola de pálidas
Flores na qual a luz de um invisível
Sol espalha-se, débeis luzes cálidas
Que aquecem o chão gélido e insensível.
As sombras sobre o chão ao vento dançam -
Mas não há vento que atravesse o triste
Vazio; só há sombras que as luzes lançam,
Sobre uma pérgola que não existe.
E quando a noite silenciosamente
Cai sobre insones olhos já cansados,
E as pétalas em ramos estrelados
Fremem, em redor sente-se envolvente
Somente o frio, as dores, os horrores
E o vazio - "Mas, ah! aquelas flores!"
sábado, 21 de setembro de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
Ulysses
Minha tradução de Ulysses, de Alfred, Lord Tennyson.
Ulisses
Pouco proveito traz que, um ocioso rei
Junto à lareira, em meio a estes penhascos áridos,
Unido a uma idosa esposa, eu meça e imponha
Leis desiguais por sobre uma selvagem raça,
Que dormem, e devoram, e me desconhecem.
Eu não descanso da jornada: beberei
A vida até o sumo: Sempre desfrutei
Pleno, pleno sofri, ambos junto daqueles
Que me amaram; sozinho, junto à costa, e quando,
Por céleres correntes, as chuvosas Híades
Molestaram o mar turvo: tornei-me um nome;
Pois, sempre errando com um coração faminto,
Muito vi e conheci; cidades de homens
E costumes, concílios, climas, governos,
Eu mesmo não menos, mas honrado por todos;
E bebi o prazer da guerra com iguais,
Longe nas tormentosas planícies de Tróia.
Eu sou uma parte de tudo que encontrei;
Mas toda experiência é um arco pelo qual
Cintila o inexplorado mundo cujas margens
Vanescem para sempre e sempre quando avanço.
Quão tedioso é parar, chegar a um término,
Enferrujar sem lustro, não brilhar em uso!
Como se alento fosse vida! Vida sobre
Vida foi muito pouco, e de uma p'ra mim
Pouco resta: porém cada hora é salva
Daquele sempiterno silêncio, algo mais,
Um portador de coisas novas; e vil fora
Por três sois resguardar-me e poupar a mim mesmo,
E este espírito cinza ansiando em desejo
Seguir sabedoria como a uma estrela,
Além do limiar do pensamento humano.
Este é meu filho, meu próprio Telêmaco,
Para quem eu concedo o cetro e a ilha,-
Meu filho amado, discernindo p'ra cumprir
Este trabalho, com prudência tornar brando
Um povo rude, e pouco a pouco, lentamente,
Subjugá-los ao proveitoso e ao deleitável.
Inocente ele é, centrado na esfera
De deveres comuns, decente a não falhar
Em gestos de ternura, e pagar
Adoração devida ao deuses familiares,
Quando eu for. Ele faz sua parte, eu a minha.
Lá jaz o porto; o barco infla suas velas:
Lá escurecem os vastos mares. Meu marujos,
Almas que labutaram, pensaram comigo -
Que sempre com alegre acolhida abraçaram
O trovão e o fulgor do sol, e opuseram
Corações livres, rostos livres - somos velhos;
A idade tem ainda sua honra e afã;
A Morte tudo acaba: mas, antes do fim,
Algum trabalho nobre, deve ser feito,
Ainda sendo homens que andaram com Deuses.
A luz começa a cintilar por entre as rochas:
O longo dia acaba: a lua sobe: cavos
Murmúrios se assomam com muitas vozes. Venham,
Não é tarde p'ra procurar um novo mundo.
Empurrem e, sentando em ordem, embatam
Os ressoantes sulcos; meu intento é
Navegar para além do pôr-do-sol, e os banhos
Das estrelas do ocidente, até que eu morra.
Talvez os golfos venham a nos afundar:
Talvez encontraremos as Ilhas Alegres,
E veremos o grande Aquiles, que conhecemos.
Muito se fora, muito ficou; e apesar
De não termos aquela força que outrora
Movia a terra e o céu, isto que somos, somos;
Uma índole igual de heróicos corações,
Fracos pelo tempo, mas fortes em vontade
De lutar, procurar, ter, mas jamais ceder.
Ulisses
Pouco proveito traz que, um ocioso rei
Junto à lareira, em meio a estes penhascos áridos,
Unido a uma idosa esposa, eu meça e imponha
Leis desiguais por sobre uma selvagem raça,
Que dormem, e devoram, e me desconhecem.
Eu não descanso da jornada: beberei
A vida até o sumo: Sempre desfrutei
Pleno, pleno sofri, ambos junto daqueles
Que me amaram; sozinho, junto à costa, e quando,
Por céleres correntes, as chuvosas Híades
Molestaram o mar turvo: tornei-me um nome;
Pois, sempre errando com um coração faminto,
Muito vi e conheci; cidades de homens
E costumes, concílios, climas, governos,
Eu mesmo não menos, mas honrado por todos;
E bebi o prazer da guerra com iguais,
Longe nas tormentosas planícies de Tróia.
Eu sou uma parte de tudo que encontrei;
Mas toda experiência é um arco pelo qual
Cintila o inexplorado mundo cujas margens
Vanescem para sempre e sempre quando avanço.
Quão tedioso é parar, chegar a um término,
Enferrujar sem lustro, não brilhar em uso!
Como se alento fosse vida! Vida sobre
Vida foi muito pouco, e de uma p'ra mim
Pouco resta: porém cada hora é salva
Daquele sempiterno silêncio, algo mais,
Um portador de coisas novas; e vil fora
Por três sois resguardar-me e poupar a mim mesmo,
E este espírito cinza ansiando em desejo
Seguir sabedoria como a uma estrela,
Além do limiar do pensamento humano.
Este é meu filho, meu próprio Telêmaco,
Para quem eu concedo o cetro e a ilha,-
Meu filho amado, discernindo p'ra cumprir
Este trabalho, com prudência tornar brando
Um povo rude, e pouco a pouco, lentamente,
Subjugá-los ao proveitoso e ao deleitável.
Inocente ele é, centrado na esfera
De deveres comuns, decente a não falhar
Em gestos de ternura, e pagar
Adoração devida ao deuses familiares,
Quando eu for. Ele faz sua parte, eu a minha.
Lá jaz o porto; o barco infla suas velas:
Lá escurecem os vastos mares. Meu marujos,
Almas que labutaram, pensaram comigo -
Que sempre com alegre acolhida abraçaram
O trovão e o fulgor do sol, e opuseram
Corações livres, rostos livres - somos velhos;
A idade tem ainda sua honra e afã;
A Morte tudo acaba: mas, antes do fim,
Algum trabalho nobre, deve ser feito,
Ainda sendo homens que andaram com Deuses.
A luz começa a cintilar por entre as rochas:
O longo dia acaba: a lua sobe: cavos
Murmúrios se assomam com muitas vozes. Venham,
Não é tarde p'ra procurar um novo mundo.
Empurrem e, sentando em ordem, embatam
Os ressoantes sulcos; meu intento é
Navegar para além do pôr-do-sol, e os banhos
Das estrelas do ocidente, até que eu morra.
Talvez os golfos venham a nos afundar:
Talvez encontraremos as Ilhas Alegres,
E veremos o grande Aquiles, que conhecemos.
Muito se fora, muito ficou; e apesar
De não termos aquela força que outrora
Movia a terra e o céu, isto que somos, somos;
Uma índole igual de heróicos corações,
Fracos pelo tempo, mas fortes em vontade
De lutar, procurar, ter, mas jamais ceder.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Os Mercadores
São dois homens, talvez dois mercadores,
Figuras negras contra um rubro céu
Que morre. Não há sol; um turvo véu
Cerceia o horizonte e derredores.
Nada ouço que dizem: se rumores
Valores ou saberes, não sei eu.
São sombras, afinal, cada um com seu
Destino, suas cargas, suas dores.
Os mercadores permanecem quietos,
Talvez assim entendam-se, talvez
Não haja nada mais a ser falado.
Ao fim do dia seguem seus trajetos,
Despedem-se e cada um, por sua vez,
Retoma suas dores e seu fado.
Figuras negras contra um rubro céu
Que morre. Não há sol; um turvo véu
Cerceia o horizonte e derredores.
Nada ouço que dizem: se rumores
Valores ou saberes, não sei eu.
São sombras, afinal, cada um com seu
Destino, suas cargas, suas dores.
Os mercadores permanecem quietos,
Talvez assim entendam-se, talvez
Não haja nada mais a ser falado.
Ao fim do dia seguem seus trajetos,
Despedem-se e cada um, por sua vez,
Retoma suas dores e seu fado.
sábado, 3 de agosto de 2013
The City in the Sea
Minha tradução de 'The City in the Sea', de Edgar Allan Poe.
A Cidade no Mar
Veja! A Morte a si mesma ergueu um trono
Em uma estranha cidade jazendo em abandono,
Longe, absorta no sombrio Oeste ermo,
Onde o bom e o mal, o pior e o superno
Partiram a seu descanso eterno.
Lá santuários e palácios e torres
(Torres que não tremem, pelo tempo carcomidas!)
Não se assemelham a nada que é nosso.
Em torno, por congregantes ventos esquecidas,
Resignadamente sob o firmamento,
As águas jazem em desalento.
Nenhum raio do santo céu invade
A longa noite daquela cidade;
Mas a luz do lúrido mar dormente
Flui sobre torres silenciosamente -
Cintila sobre os cumes livremente -
Sobre domos - sobre espirais - sobre salões reais -
Sobre templos - sobre babilônicos umbrais -
Sobre a muito esquecidas sombrias pérgolas
De esculpida hera e flores pétreas -
Sobre muitos e muitos altares divinos
Cujos engrinaldados frisos fazem unidos
As vinhas, as violetas e os violinos.
Tal se fundem torres e sombras em tal lugar
Que tudo parece oscilante sobre o ar,
Enquanto de uma torre orgulhosa
A Morte olha abaixo monstruosa.
Lá, templos e túmulos abertos, rente
Escancaram-se às águas reluzentes;
Mas nem as riquezas que lá tem abrigo
Em cada olho diamantino -
Nem o morto ornado de alegre enfeite
Tenta as águas de seu leito;
Pois nenhuma onda se agita
Por sobre a imensidade vítrea -
Nenhuma ondulação diz que os ventos possam estar
Nalgum longínquo e alegre mar -
Nenhum suspiro insinua que os ventos tenham estado
Em mares menos hediondamente parados.
Mas veja, um distúrbio está no ar!
A onda - lá está a tremular!
Como se as torres houvessem empurrado,
Ao afundar um pouco, o mar parado.
Como se os cumes houvessem debilmente dado
Um vazio sobre o Céu velado.
As ondas agora brilham com mais rubor -
As horas ofegam débeis e sem vigor-
E quando, em meio a não terrenos, murmurantes tonos,
Lá embaixo aquela cidade achar paragem,
O Inferno, surgindo em um turbilhão de tronos,
Prestar-lhe-á sua homenagem.
A Cidade no Mar
Veja! A Morte a si mesma ergueu um trono
Em uma estranha cidade jazendo em abandono,
Longe, absorta no sombrio Oeste ermo,
Onde o bom e o mal, o pior e o superno
Partiram a seu descanso eterno.
Lá santuários e palácios e torres
(Torres que não tremem, pelo tempo carcomidas!)
Não se assemelham a nada que é nosso.
Em torno, por congregantes ventos esquecidas,
Resignadamente sob o firmamento,
As águas jazem em desalento.
Nenhum raio do santo céu invade
A longa noite daquela cidade;
Mas a luz do lúrido mar dormente
Flui sobre torres silenciosamente -
Cintila sobre os cumes livremente -
Sobre domos - sobre espirais - sobre salões reais -
Sobre templos - sobre babilônicos umbrais -
Sobre a muito esquecidas sombrias pérgolas
De esculpida hera e flores pétreas -
Sobre muitos e muitos altares divinos
Cujos engrinaldados frisos fazem unidos
As vinhas, as violetas e os violinos.
Tal se fundem torres e sombras em tal lugar
Que tudo parece oscilante sobre o ar,
Enquanto de uma torre orgulhosa
A Morte olha abaixo monstruosa.
Lá, templos e túmulos abertos, rente
Escancaram-se às águas reluzentes;
Mas nem as riquezas que lá tem abrigo
Em cada olho diamantino -
Nem o morto ornado de alegre enfeite
Tenta as águas de seu leito;
Pois nenhuma onda se agita
Por sobre a imensidade vítrea -
Nenhuma ondulação diz que os ventos possam estar
Nalgum longínquo e alegre mar -
Nenhum suspiro insinua que os ventos tenham estado
Em mares menos hediondamente parados.
Mas veja, um distúrbio está no ar!
A onda - lá está a tremular!
Como se as torres houvessem empurrado,
Ao afundar um pouco, o mar parado.
Como se os cumes houvessem debilmente dado
Um vazio sobre o Céu velado.
As ondas agora brilham com mais rubor -
As horas ofegam débeis e sem vigor-
E quando, em meio a não terrenos, murmurantes tonos,
Lá embaixo aquela cidade achar paragem,
O Inferno, surgindo em um turbilhão de tronos,
Prestar-lhe-á sua homenagem.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Were I
Were I thy hand, thy soft, lascivous hand,
That glides and swerves along thy snowy breasts:
A snake that savours every grain of sand
Upon thy flesh and on thy thighs there rests.
Were I thy lips to taste thy trancelike kiss
When uncontroll'd by love and lust and fire
Of passion, thou art lost in an abyss,
So I would quench thy wish with my desire.
Were I thy soul to know the mystery
That sets thyself awake and what sweet thought
That burns within thy bosom; would I be
Thy every wish and love, but I am not:
I am thy lover, and suffices me thee
Love and for evermore thy lover be.
That glides and swerves along thy snowy breasts:
A snake that savours every grain of sand
Upon thy flesh and on thy thighs there rests.
Were I thy lips to taste thy trancelike kiss
When uncontroll'd by love and lust and fire
Of passion, thou art lost in an abyss,
So I would quench thy wish with my desire.
Were I thy soul to know the mystery
That sets thyself awake and what sweet thought
That burns within thy bosom; would I be
Thy every wish and love, but I am not:
I am thy lover, and suffices me thee
Love and for evermore thy lover be.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Soneto para um movimento a ser denominado 'Arvrismo'
Virente mar, por pássaros singrado!
Frondosa fronte, árvore divina,
Em cujos ramos rútilos a sina
Humana encontra um leito p'ra seu fado.
Contemplai seu verdor iluminado,
Mais magnânimo do que a campina -
Cada folha, uma doce dançarina;
Cada galho, um Atlas encantado!
Ó, vasta, verdejante catedral!
Em cuja arquitetura natural
Medito infindas horas deleitáveis.
Fera forma em que ruge a natureza!
Ó, ático semblante, Ó, beleza
Plena de mudos sonhos inefáveis!
Frondosa fronte, árvore divina,
Em cujos ramos rútilos a sina
Humana encontra um leito p'ra seu fado.
Contemplai seu verdor iluminado,
Mais magnânimo do que a campina -
Cada folha, uma doce dançarina;
Cada galho, um Atlas encantado!
Ó, vasta, verdejante catedral!
Em cuja arquitetura natural
Medito infindas horas deleitáveis.
Fera forma em que ruge a natureza!
Ó, ático semblante, Ó, beleza
Plena de mudos sonhos inefáveis!
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Carta a uma Amigo Poeta
Amigo, me disseste, "irei dispor
Em versos toda a nossa amizade,
E cada verso adverso seu compor
Com rimas de amical rivalidade".
Sou grato ao seu desejo de tornar
Divinas tais tribulações efêmeras;
Por imortalizar a sinfonia
Do ambíguo poetar de duas vidas.
Porém, amigo, peço-lhe que deixe
De lado nossas rimas assonantes,
Que em cujos chiaroscuros mal conversam.
Verdade, não há muita consonância
Em nossa poesia. Deixe estar:
Nossa amizade rima em versos brancos.
Em versos toda a nossa amizade,
E cada verso adverso seu compor
Com rimas de amical rivalidade".
Sou grato ao seu desejo de tornar
Divinas tais tribulações efêmeras;
Por imortalizar a sinfonia
Do ambíguo poetar de duas vidas.
Porém, amigo, peço-lhe que deixe
De lado nossas rimas assonantes,
Que em cujos chiaroscuros mal conversam.
Verdade, não há muita consonância
Em nossa poesia. Deixe estar:
Nossa amizade rima em versos brancos.
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